ADUANEIRAS
Retaliações não afetarão economia Renato Carbonari Ibelli – 9/3/2010 – 20h57
Fabrizio Bensch/Reuters A elevação das tarifas para a importação de trigo dos EUA e a safra ruim do produto na Argentina poderão incentivar a compra do produto do Canadá.
O aumento do Imposto de Importação para produtos dos Estados Unidos não deve causar impacto significativo na economia do País. Especialistas acreditam que a pressão sobre os importados norte–americanos não se refletirá no bolso do consumidor brasileiro, mas também não fará com que o governo de Barack Obama reduza os subsídios ao algodão. A medida teria caráter mais simbólico – com o Brasil marcando posição na Organização Mundial do Comércio (OMC).
Trigo – Com exceção do trigo, os produtos incluídos na lista dos que poderão ser sobretaxados não têm representatividade na pauta das importações brasileiras dos EUA. E até mesmo o trigo norte–americano já vinha perdendo espaço no Brasil. Em 2008, as importações do produto dos EUA atingiram US$ 318,5 milhões. Mas as compras caíram para US$ 45,4 milhões em 2009.
Porém, há uma preocupação para esse ano. Como a safra argentina de trigo foi ruim, os moinhos brasileiros acreditam que terão de comprar mais dos EUA, agora a um preço mais elevado, já que a taxa de importação do cereal deve subir de 10% para 30%.
Alternativas – Ainda assim há uma saída para os moinhos brasileiros. O trigo canadense já vinha roubando espaço do norte–americano, e agora pode ser a alternativa para manter os preços do cereal compatíveis com os atuais. Bruce Burnett, diretor comercial da Canadian Whest Board, empresa responsável pela comercialização de maior parte do trigo canadense, já declarou ontem que "os moinhos brasileiros poderão preferir comprar o cereal canadense por conta da sobretaxa ao trigo norte–americano"
Impacto – Os demais produtos, da lista de 102 itens que podem ter o Imposto de Importação elevado, respondem por menos de 1% das importações brasileiras dos EUA.
A Associação dos Distribuidores e Importadores de Perfumes, Cosméticos e Similares (Adipec) diz que as compras de produtos para o segmento representam menos de 5% do total importado, já que a maior parte vem da Europa.
icardo Moraes/Reuters O secretário de Comércio dos EUA se reuniu com ministros em Brasília.
Veículos trazidos dos EUA também serão sobretaxados. O Impostos de Importação desse item subirá de 35% para 50%. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) diz que "a inclusão de automóveis na lista preocupa". Mas a entidade não diz qual seria o impacto da medida no setor. A importação de veículos norte–americanos é pequena. A Chrysler é uma das marcas mais afetadas. Ainda assim, a empresa diz que somente "os modelos importados dos EUA representam de 10% a 15% dos seus produtos que entram no Brasil". A maior parte dos veículos da empresa são importados do México, Áustria e Canadá. Inflação – Para André Biancareli, professor do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp, a medida do governo brasileiro não causará impacto na inflação. "É exagero achar que o preço do pãozinho vai aumentar por causa da retaliação. Aumentaria caso o trigo argentino, nosso principal fornecedor, fosse taxado. Esse é um tipo de discussão que tende a gerar mais calor do que luz."
O professor da vê a retaliação como simbólica. "A medida mostra que o Brasil finalmente começa a jogar com as regras do mercado internacional. Mas é ilusão achar que os subsídios norte–americanos vão reduzir. Uma redução de subsídio depende de momento político, precisa passar pelo congresso americano. É algo complexo", conclui Biancareli.
Proposta – Visitando o Brasil para participar de um fórum empresarial, o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Gary Locke, afirmou ontem que seu governo fará uma boa proposta de negociação para o Brasil. Ele se reuniu com os ministros Dilma Rousseff (Casa Civil) e Miguel Jorge (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior).
Assunto é destaque no exterior
A adoção de retaliações comerciais pelo governo brasileiro recebeu ontem a atenção da imprensa internacional. O serviço de notícias canadense da agência Reuters, por exemplo, avaliou que as exportações de trigo daquele país – que é atualmente o sexto maior produtor mundial – poderão ser beneficiadas pela medida.
O texto citou declarações do diretor da Canadian Wheat Board, Bruce Burnett, para quem a decisão do Brasil representa uma importante oportunidade competitiva. "Em um ano como este, em que o mercado de trigo é muito competitivo, seria ótimo ter uma vantagem como essa", avaliou.
Abastecimento – O suprimento do mercado brasileiro de trigo também foi citado no texto da agência, que trouxe a opinião de um trader de São Paulo, não–identificado, segundo quem será necessário que o País busque outros fornecedores para compensar a ausência do trigo norte–americano – abrindo espaço para Canadá, Rússia, Polônia.
Para o gerente–geral e vice–presidente da Alfred Toepfer (empresa canadense que comercializa o trigo da Wheat Board), Lawrence Yakielashek, as exportações do produto ao Brasil – que em 2008/2009 totalizaram 143 mil toneladas – poderão subir para algo de 350 mil a 400 mil toneladas em 2009/2010. Contudo, ele ponderou que o tribo canadense perde em termos de preço para o da Rússia, mais competitivo.
Posição dos EUA – No Reino Unido, o Financial Times também deu destaque ao assunto, e abriu espaço para a opinião do conselheiro da Miller & Chevalier, Jon Huenemann, para o qual a situação só poderá ser resolvida se a oferta norte–americana ao Brasil for “significativa”.
No site da BBC, o economista–chefe do National Cotton Council, Gary Adams, defendeu os subsídios dos EUA aos produtores de algodão. Já o diretor–executivo do Brasil–US Business Council, Steven Bipes, afirmou que o governo norte–americano deve cumprir as determinações estabelecidas pela Organização Mundial do Comércio (OMC).
A BBC submeteu ainda o assunto à opinião de seus leitores, questionando o impacto das medidas para as relações comerciais entre EUA e América do Sul.
Poder de barganha – Para o setor de comércio exterior brasileiro, as medidas foram vistas como um importante instrumento de negociação para o País, especialmente em acordos que envolvam questões como a abertura à carne e ao etanol brasileiros. "O lobby do setor agrícola norte–americano é muito forte. Medidas como essa pressionam os empresários a exigir a derrubada dos incentivos aos produtores locais", apontou o gerente de importação do Grupo Aduaneiras, João dos Santos Bizelli.
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